Se pudesse escolher
me despiria das cores deste carnaval
vestiria meu traje cinza e silencioso
e bailaria de sombra em sombra
tirando o pó de todas as lembranças
para descobrir o que fez o que sou
Me sinto egoísta por gastar minhas energias com pensamentos idiossincráticos.
Mas este sábado de carnaval foi assim, voltado para o interior. Um dia de sensibilidade a flor da pele, pintado com tintas melancólicas e lágrimas teimosas. Todas as indagações iam no sentido do mais antigo e complicado questionamento humano: afinal, o que sou? No que me transformei? Uma vez que esta segunda me parece mais apropriada para designar o sentimento daquela manhã. Depois de vinte e dois anos e meio, começo a confrontar todas as concepções que construí de mim mesma, reunidas até agora numa narrativa mais ou menos coerente. Narrativa de si mesmo, para a qual nós recorrermos quando estamos inseguros diante do mundo. O problema foi tomar consciência de que não existe mais coerência. E que nunca existiu. Me vi refletida num espelho composto por múltiplos pedaços, cada qual refletindo uma coisa diferente, sem que formassem um todo harmonioso.
No meio de tantos reflexos de luz, me perco tentando entender o que fez com que os fragmentos se rachassem neste ou naquele ponto. Que golpe tornara este pedaço mais pontiagudo e aquele de forma tão harmônica? Por que algumas partes são tão pesadas? O que fez com que alguns pedaços se tornassem tão duros quanto diamantes e outros tão quebradiços? Onde foram parar aqueles fragmentos fortes que sustentavam o todo? E os vazios, do que são feitos? Por que este pedaço só reflete a chuva e aquele reflete uma lembrança de verão? Por que a imagem em alguns fragmentos é tão nítida, enquanto que em outros ela é tão embaçada? Por que alguns são profundos e outros tão rasos?
A solução provisória é tentar me aceitar como um mosaico. Como um objeto de arte que carrega traços de diferentes influências e escolas, das mais convencionais até as mais vanguardistas. Como algo talhado dia após dia, num incessante movimento de montagem e desmontagem de suas peças. Como um objeto cuja configuração de suas partes tenha sido obra não apenas de suas ações, mas de uma intrincada trama social da qual ela faz parte.
Pensando assim, descanso minha mente da tarefa árdua de buscar razão para meu todo incoerente. Pelo menos temporariamente. E encaro meu mosaico como algo que não deve possuir apenas valor em si, mas em sua relação com os outros. Nessa dança desequilibrada de papéis e máscaras que é a vida.
Espelhos são objetos mágicos. Mesmo os partidos.
Proibido não colar cartazes
20 de fevereiro de 2012
sábado de carnaval (parte cinza)
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15 de fevereiro de 2012
Desventuras
tanta maravilha
maravilharia dura
aqui neste lugar
onde nada dura
onde nada pára
para ser ventura
(Paulo Leminski)
maravilharia dura
aqui neste lugar
onde nada dura
onde nada pára
para ser ventura
(Paulo Leminski)
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efêmero
4 de fevereiro de 2012
o caminho.
Todo dia ela caminha.
Pela manhã, tranca o portão e dá bom dia para o gato que a observa com olhos de fuzil. Desce uma rua comprida, onde uma senhora conversa com as pedras da calçada. Vira à esquerda e conversa com dois cães, cuja dona os põe para fora para satisfazerem suas necessidades fisiológicas matutinas. Estão sempre em formação, um na ladeira e o outro na esquina vigiando a rua. Contorna uma curva bem aberta e desce mais uma rua à direita.
Passa pelos mesmos caras que resmungam sempre as mesmas coisas, normalmente ela agradece por não ter escutado. Se pergunta e as vezes pergunta em voz alta "qual é o problema" (será a saia ou o simples fato de ser mulher?) e é chamada de louca. Desce uma rua bem inclinada, onde os flanelinhas brigam entre si, pois no espaço deixado por um deles "nenhuma madame conseguirá estacionar". Vira à esquerda, confere o cabelo na vidraça de uma clínica, onde velhinhas são guiadas em micro passos e bebês choram de dor. Passa em frente a uma base policial, dá bom dia e assobia para o cachorro amigo dos PMs. Reflete sobre os últimos acontecimentos. Suspira ao atravessar a rua. Atravessa outra. Passa por um caminhão de onde se descarregam bois inteiros. Respira fundo. Passa por camelôs armando suas vendas. Constantemente desvia de estruturas metálicas. Moradores de rua varrem a soleira de uma loja, brigam entre si e recolhem seus pertences. Ponto de ônibus lotado. Fila para carregar bilhete único. Catraca do terminal e moça falando nas caixas de som um incompreensível: "Não alimente os CÃES!". Contorna o pátio de ônibus, corre e pega aquele que está para sair. Sempre vai em pé.
Na volta é diferente. Não há cães.
As subidas são entediantes. E ela canta. Sempre canta.
Pela manhã, tranca o portão e dá bom dia para o gato que a observa com olhos de fuzil. Desce uma rua comprida, onde uma senhora conversa com as pedras da calçada. Vira à esquerda e conversa com dois cães, cuja dona os põe para fora para satisfazerem suas necessidades fisiológicas matutinas. Estão sempre em formação, um na ladeira e o outro na esquina vigiando a rua. Contorna uma curva bem aberta e desce mais uma rua à direita.
Passa pelos mesmos caras que resmungam sempre as mesmas coisas, normalmente ela agradece por não ter escutado. Se pergunta e as vezes pergunta em voz alta "qual é o problema" (será a saia ou o simples fato de ser mulher?) e é chamada de louca. Desce uma rua bem inclinada, onde os flanelinhas brigam entre si, pois no espaço deixado por um deles "nenhuma madame conseguirá estacionar". Vira à esquerda, confere o cabelo na vidraça de uma clínica, onde velhinhas são guiadas em micro passos e bebês choram de dor. Passa em frente a uma base policial, dá bom dia e assobia para o cachorro amigo dos PMs. Reflete sobre os últimos acontecimentos. Suspira ao atravessar a rua. Atravessa outra. Passa por um caminhão de onde se descarregam bois inteiros. Respira fundo. Passa por camelôs armando suas vendas. Constantemente desvia de estruturas metálicas. Moradores de rua varrem a soleira de uma loja, brigam entre si e recolhem seus pertences. Ponto de ônibus lotado. Fila para carregar bilhete único. Catraca do terminal e moça falando nas caixas de som um incompreensível: "Não alimente os CÃES!". Contorna o pátio de ônibus, corre e pega aquele que está para sair. Sempre vai em pé.
Na volta é diferente. Não há cães.
As subidas são entediantes. E ela canta. Sempre canta.
29 de março de 2011
teste
teste, o clássico...um dois três, som?
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